5 de out. de 2008

A RAINHA FALA


POR BEPPE SEVERGNINI
Desde que seu primeiro álbum foi lançado, há 25 anos, Madonna vendeu mais de 200 milhões de cópias, teve dois filhos naturais e adotou outro, casou-se duas vezes e alcançou a marca de 70 milhões de hits no Google, embora deva parte deles a outra Madonna famosa, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Hoje, aos 50 anos recém-completados, Madonna parece ter 20 anos a menos, enquanto fala com uma cadência e sotaque quase britânicos.

Durante esta entrevista, feita em Beverly Hills, Madonna, a rainha do pop, vestindo um jogging e sentada numa poltrona, não usava nenhuma maquiagem e seus cabelos loiros estavam desarrumados. Quando a entrevistei pela primeira vez, dez anos atrás, ela era uma quarentona recente. Hoje ela não é mais a material girl dos anos 80 nem a diva pop cínica e provocadora de polêmicas de natureza sexual e religiosa da década seguinte. Pelo contrário. Hoje Madonna parece ouvir com atenção. E falar com prudência.

Posso usar um gravador?
Não, eu quero que você guarde as respostas de cabeça.


Desde que valham a pena. Ouvi seu novo CD, Hard Candy, o décimo primeiro de sua carreira. Gostei da canção She’s Not Me. É a sua cara. Eu gosto da faixa “Candy Shop” (essa é a minha cara) e de “Miles Away”. Também adoro “Even the Devil Wouldn’t Recognize You”. E, sim, também gosto de “She’s not Me”. Bruce Springsteen costuma dizer que um novo disco é a melhor forma de expressão para um artista. O que você acha?
Acho que tenho sorte por ter encontrado maneiras diferentes de me expressar. O filme que dirigi (Filth and Wisdom, apresentado no Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2008) foi uma ótima maneira de colocar todas as coisas que eu amo no cinema. Mas eu poderia dizer o mesmo da música. Não acho que uma dessas formas de expressão é necessariamente melhor que a outra, mas a música é mais acessível que o cinema.

Após 25 anos de carreira, você diria que a controvérsia ajuda? Sei que as controvérsias são dolorosas quando dizem respeito a sua família e filhos. Mas seja honesta: na cultura pop, uma certa dose de controvérsia ajuda?
Em um plano filosófico, sim. O problema é que basta você pensar de maneira singular ou emitir uma opinião que não bate necessariamente com a opinião corrente para ser considerada uma figura controversa. Não é difícil gerar controvérsia. Por exemplo: se você cresceu num bairro em que todos são cristãos e, de repente, você diz que não quer ser cristão, você atrairá controvérsias.

É verdade que você não lê nada do que escrevem a seu respeito?
É. Eu nunca leio uma resenha ou crítica. Eu não tenho a menor idéia do que as pessoas dizem de mim na mídia.

Você não leu nem mesmo as suas biografias?
Não.

Enquanto me preparava para esta entrevista, eu li uma biografia sua inteirinha. Quer ver pelo menos a capa?
Não. Não vou encontrar nenhuma verdade aí. Não tenho razão nenhuma para lê-la. Se quiser saber algo a meu respeito, você precisa me encontrar e conversar comigo.

Se você diz que suas biografias não são confiáveis, por que você não escreve uma?
Na minha condição de artista, tudo o que faço é autobiográfico. Meus filmes e documentários são autobiográficos. Os discos são levemente autobiográficos. Além disso, não estou pronta e nem mesmo interessada em sentar e escrever a meu próprio respeito.

Nestas duas décadas e meia você cometeu algum engano que não gostaria de repetir?
Por exemplo?

Como o seu filme Swept Away, por exemplo (dirigido por seu marido, Guy Ritchie, e estrelado por Madonna e Adriano Giannini).
Eu aprendi muitas coisas com esse filme.

Como, por exemplo, nunca confiar em italianos?
(Rindo.) Como assim? Você se refere ao (ator italiano) Adriano Giannini? Ele foi fantástico. Amei ter trabalhado com ele.

Você adotou o David, um garoto nascido em Malawi. Algumas pessoas dizem que você o raptou. Isso a incomoda? Você acha que a mídia foi desleal nesse caso?
Desleal? Não há ninguém na imprensa que seja leal a mim.
Como você pode dizer isso se admite que não lê nada que é escrito a seu respeito?
Jornais e revistas precisam gerar manchetes. Se eles dizem coisas horríveis ou mentirosas, eu penso: “Eles fazem isso apenas para vender mais”. Nem entro no mérito da questão.


Sei que você não deixa seus filhos Lourdes e Rocco assistirem à TV. Não é estranho que uma estrela com um estilo de vida tão liberal quanto o seu queira que seus filhos cresçam com uma educação severa? Se a sua filha se tornasse uma adolescente clone da Madonna, você ficaria feliz? Ela também pode quer ser uma pop star?
Ela pode ser o que ela quiser. Mas, por enquanto, eu gostaria que ela fosse mesmo uma criança. Quero que ela preserve ao máximo a sua inocência e possa crescer tão anonimamente quanto possível. Ela vê muitos filmes e tem uma vida social muito ativa. Eu não acho que a tolha em nada. Eu tenho certeza de que ela vê televisão quando vai à casa das amigas. Ela não vive numa bolha. Eu acho que minha principal tarefa como mãe é compartilhar com meus filhos as minhas prioridades na vida. Isso certamente os tornará mais fortes.

Você nasceu e cresceu nos Estados Unidos, mas viveu por um bom tempo na Inglaterra. Qual a principal diferença entre esses dois países para uma pop star?
Eu não acho que exista muita diferença. Em termos de cultura de celebridades, eles são muito, muito parecidos. Você não acha?

Você está acompanhando as primárias americanas? Quem você prefere?
Eu achei fantástico ver uma mulher disputar a indicação e acho fantástico que um afro-americano concorra ao cargo. Fico feliz por a questão racial estar tão presente.

Você quer ser uma espécie de Mick Jagger feminino e fazer shows e apresentações até quando der?
Quem sabe? Não estou pensando nisso ainda. Talvez eu me dedique a dirigir filmes. Quando a gente se encontrar novamente, daqui a dez anos, eu respondo.

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