
O EVANGELHO DE JOÃO Cap. 6.1-4 - INTRODUÇÂO
40 (6.1) Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galiléia, que é o de Tiberíades. (2) Seguia-o numerosa multidão, porque tinham visto os sinais que ele fazia na cura dos enfermos. (3) Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com os seus discípulos. (4) Ora, a Páscoa, festa dos judeus, estava próxima.
Para quem estuda mais a fundo o Evangelho segundo João, não há como ignorar o parentesco às vezes literal com o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos três sinópticos. O capítulo 6 serve para muitos comentaristas como “prova” do conhecimento e uso por João do Evangelho de Marcos. Encontramos não somente as mesmas palavras (6.7,20,69) mas sobretudo a mesma ordem literária nos dois Evangelhos. Temos no capítulo 6 do Evangelho de João uma abordagem joanina, simbólica, daquilo que Marcos nos relata no seu próprio estilo, tecnicamente preciso, até nos detalhes.
Na sua abordagem cristológica, João segue a ordem dos acontecimentos que Marcos, dezenas de anos atrás, havia escolhido e que formam uma unidade temática. São eles na ordem seguinte: o milagre do pão (Marcos 6,32-44); o andar sobre as águas (Marcos 6,45-52); o pedido de um sinal por parte dos fariseus (Marcos 8,11-13); as palavras de Jesus a respeito do pão (Marcos 8,14-21); a confissão de Pedro (Marcos 8,27-30); o anúncio do sofrimento por Jesus (Marcos 8,31) e finalmente a palavra quanto a Satanás (Marcos 8,32s). No decorrer do estudo faremos, portanto, referências a Marcos, onde nos parecem fazer sentido. (6.1) Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galiléia, que é o de Tiberíades. O grande lago, chamado nos quatro Evangelhos comumente “Mar da Galiléia”, aparece só três vezes com a menção da cidade de Tiberíades e, as três vezes, somente no Evangelho joanino (6,1;23 e 21,1).
A cidade de Tiberíades na margem oriental do lago foi fundada por Herodes Antipas nos anos 26/27 d.C. em homenagem a César Tibério, como cidade helenista (= com costumes gregos). Como ela fora levantada na região de um antigo campo de túmulos, foi considerada “impura” pelos judeus e Herodes teve que usar a força da lei para que ela fosse habitada, preferencialmente por não-judeus. Somente no século 3 a cidade foi declarada “pura” pelos fariseus e tornou-se sob Jehuda Há-Nasi sede do patriarcado judaico.
A menção dessa cidade recém-levantada nos dias de Jesus, no presente contexto, permite nos entender que Jesus havia-se retirado para um lugar seguro, perto de sua terra natal, a Galiléia. Os discursos no capítulo anterior dão margem à idéia do perigo que Jesus corria em Jerusalém, principalmente por causa de suas declarações que acabamos de estudar nas lições anteriores. Devemos ter bem claro que, havia vários momentos em que Jesus, literalmente, teve que fugir. Os Evangelhos não usam esse termo (confira em Mateus 15,21; Marcos 3,7; Lucas 4,29.30; 5,16 e 9,10 e João 6,15). Eles, respeitosamente, dizem “retirou-se”. Na referência de Lucas 4.29,30 tratou-se claramente de uma fuga. Jesus escapou aos que lhe foram no encalço.
(2) Seguia-o numerosa multidão, porque tinham visto os sinais que ele fazia na cura dos enfermos. Não nos é dito por qual caminho Jesus havia chegado à margem oriental do Mar da Galiléia. A numerosa multidão que O seguia (“porque tinham visto os sinais que ele fazia”) constituiu-se provavelmente dos mesmos peregrinos festivos que já O acompanhavam com suas famílias, quando Ele subiu para a festa (cap. 5.1). João menciona “os sinais” que Jesus fazia “na cura dos enfermos”. Pelo seu Evangelho, no entanto, sabemos somente de dois (a cura do servo do oficial e a do paralítico em Jerusalém), mas podem ter sido muitos mais. O Evangelista não se interessava em enumerar curas. Ele citou alguns sinais dos quais teve informações concretas ou de que fora testemunha ocular e usou-os para levar o leitor à conclusão que tinha em mente ao escrever seu Evangelho: Abrir os olhos deles para a “Glória de Deus” na pessoa de Jesus de Nazaré.O termo grego que o Evangelista usou para qualificar os numerosos “seguidores” mencionados, é um termo quase técnico, mais precisamente ele significa: “seguidores”. Com este termo ele os qualificou, desde já, como pessoas que O seguiam enquanto viam nisso alguma utilidade, mas logo depois O abandonaram, considerando Suas palavras “duras demais” (6.60s). (3) Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com os seus discípulos. (4) Ora, a Páscoa, festa dos judeus, estava próxima. Jesus chegou a subir a uma colina (monte) com seus discípulos, provavelmente procurando descanso. É neste momento em que o Evangelista observa a proximidade da festa da páscoa.
Todo o Evangelho de João deve ser lido na perspectiva da páscoa. Desde o começo, o autor mostra Jesus como Aquele que cumpre a missão que o Pai lhe outorgou. A páscoa, por assim dizer, já estava acontecendo espiritualmente quando o Batista anunciou: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29) e ela se consumiu quando Jesus, por amor aos Seus, morreu na cruz, exatamente na hora da matança dos cordeiros pascais no Templo. Ainda mais: como ordena a “Halacha da Páscoa” (ordem cultual judaica), não lhe fora quebrada nenhuma perna (19.31s).
A denominação “Páscoa, a festa dos judeus” corresponde ao uso comum e não indica que João quer se distanciar “dos judeus”. Além de ser usada várias vezes (2.13; similarmente em 7.2), o historiador judaico Josefo também a usou na sua descrição da Festa dos pães asmos, quando disse que esta era chamada “páscoa pelos judeus”. Essa páscoa é o grande tema do Evangelista: a hora em que o Pai mesmo faria expiação pelo seu povo e pelo mundo. Confira neste contexto Hebr. 9,11-22, antes de continuar o estudo. Você entenderá melhor o significado dessa páscoa do Senhor para o judeu cristão.
Levantando os olhos, Jesus vê uma multidão se aproximando. De longe O haviam seguido e nem o cansaço os havia levado a desistir de ir atrás desse “Jesus de Nazaré”.
Antes de olhar a própria descrição do “sinal dos pães” (na próxima lição) convém pensar a respeito de dúvidas sempre levantadas e dificilmente respondidas num sermão dominical. Comparando os quatro Evangelhos, encontramos várias aparentes contradições. O sinal em si não é contestado: aconteceu, mas não foi compreendido logo, nem pelos discípulos, nem pelo povo saciado.
O que chama a nossa atenção é que Marcos relata duas alimentações, enquanto João só conhece uma. Além do mais, nos detalhes há diferenças. No relato de João é Jesus aquele que age, ordena, observa, enquanto em Marcos a iniciativa parcialmente parte dos discípulos.
O sinal em si é o único milagre que todos os quatro Evangelhos contam. Ele está fora de dúvida; aconteceu e foi compreendido somente muito mais tarde. A tradição reconheceu neste sinal o clímax do ministério de Jesus, o que, de fato, é o caso. Assim, cada Evangelista procurou descrever da melhor maneira e servindo ao propósito de seu Evangelho o que, de fato, aconteceu naquele dia. Todos os Evangelistas sabem que, após a refeição, Jesus ordenara que os restos fossem recolhidos. Só que em Marcos, no relato mais remoto, foram 12 cestos na primeira e sete na segunda alimentação enquanto João somente conhece doze cestos. Não há dúvida de que os Evangelistas querem transmitir uma mensagem através do número de cestos cheios, recolhidos de sobras.
Não somente isso: Marcos sabe de 5 pães e dois peixes na primeira e de 7 pães e “alguns peixinhos” na segunda alimentação, enquanto João lembra de 5 pães e dois peixinhos disponíveis inicialmente para a alimentação da multidão. O que significam esses números contraditórios?
Como pertencemos a uma geração estranha ao simbolismo judaico, geração “racional”, que desaprendeu de entender símbolos e está presa a números exatos, encontramos dificuldades no texto. Não as resolvemos apenas mandando “crer” que sete é igual a doze. Dependemos, de um lado, do conhecimento das Escrituras da Antiga Aliança e, de outro, de humildade perante o mistério.
Como já mencionamos, podemos ter como provavelmente certo que João conheceu o Evangelho de Marcos e o usou como fonte de informação. Observamos que o nosso Evangelista nada repete do que Marcos já disse. Uma possível explicação das diferenças encontradas é a seguinte, apresentada por H.Thyen no seu “Comentário do Evangelho de João (2005):
Parece que João reuniu os dois relatos de Marcos (6,35s e 8,1-9) num só. Marcos, por sua vez, parece ter usado o caminho contrário: da tradição e do conhecimento mais remoto, ele por razões que ora não podem ser definidas, criou dois acontecimentos. Chamam atenção os números diferentes de cestos nos dois acontecimentos relatados por Marcos. A alimentação dos cinco mil com 12 cestos cheios parece apontar para a esperada reunião dos doze tribos (ainda espalhados) de Israel, enquanto os sete cestos na alimentação dos 4 mil representam a totalidade dos povos, vindo dos quatro cantos do mundo. Marcos compreendeu, ao escrever seu Evangelho, que a páscoa apontava para a consumação do tempo. João, por sua vez, meio século mais tarde, entendeu que a reunião e consumação só seria possível pelo Senhor ressurreto e Seu Espírito, concedido a Seu povo. Portanto reuniu as duas narrações de Marcos numa só.
Salientamos que as considerações acima devem ser vistas, no máximo como um hipótese provável, não como instrução bíblica.
João, Evangelista, conheceu com certeza as Escrituras e, ao relatar a alimentação, lembrou-se do mesmo sinal (milagre do pão) do profeta Eliseu (2.Rei 4,42-44) quando menciona os “pães de cevada” do menino (6.9).
O autor do livro de 2 Reis 4.42 conta que “Veio um homem de Baal-Salisa e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada, e espigas verdes no seu alforje. Disse Eliseu:’Dá ao povo para que coma’. (43) Porém, seu servo lhe disse: ‘Como hei de por isto diante de cem homens?’ Ele (Eliseu) tornou a dizer: ‘Dá-o ao povo, para que coma; porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. (44) Então, lhes pôs diante; comeram, e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor”.
No capítulo anterior ouvimos como Jesus apontou “as Escrituras” como testemunha fiel a seu favor. Sendo assim, a semelhança do acontecimento acima não pode ser desprezada.
Mais ainda: Pão de cevada era comida típica de gente pobre (Comida de disciplina para soldados maus, alimento para escravos e gente insignificante) Fonte: Bauer, Com.92.
Sendo assim, entendemos melhor que Deus do “nada” faz alguma coisa para sua Glória. Ele não precisa do pão de ricos; Ele usa você e eu e nos transforma de acordo com Sua soberana vontade.
Para quem estuda mais a fundo o Evangelho segundo João, não há como ignorar o parentesco às vezes literal com o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos três sinópticos. O capítulo 6 serve para muitos comentaristas como “prova” do conhecimento e uso por João do Evangelho de Marcos. Encontramos não somente as mesmas palavras (6.7,20,69) mas sobretudo a mesma ordem literária nos dois Evangelhos. Temos no capítulo 6 do Evangelho de João uma abordagem joanina, simbólica, daquilo que Marcos nos relata no seu próprio estilo, tecnicamente preciso, até nos detalhes.
Na sua abordagem cristológica, João segue a ordem dos acontecimentos que Marcos, dezenas de anos atrás, havia escolhido e que formam uma unidade temática. São eles na ordem seguinte: o milagre do pão (Marcos 6,32-44); o andar sobre as águas (Marcos 6,45-52); o pedido de um sinal por parte dos fariseus (Marcos 8,11-13); as palavras de Jesus a respeito do pão (Marcos 8,14-21); a confissão de Pedro (Marcos 8,27-30); o anúncio do sofrimento por Jesus (Marcos 8,31) e finalmente a palavra quanto a Satanás (Marcos 8,32s). No decorrer do estudo faremos, portanto, referências a Marcos, onde nos parecem fazer sentido. (6.1) Depois destas coisas, atravessou Jesus o mar da Galiléia, que é o de Tiberíades. O grande lago, chamado nos quatro Evangelhos comumente “Mar da Galiléia”, aparece só três vezes com a menção da cidade de Tiberíades e, as três vezes, somente no Evangelho joanino (6,1;23 e 21,1).
A cidade de Tiberíades na margem oriental do lago foi fundada por Herodes Antipas nos anos 26/27 d.C. em homenagem a César Tibério, como cidade helenista (= com costumes gregos). Como ela fora levantada na região de um antigo campo de túmulos, foi considerada “impura” pelos judeus e Herodes teve que usar a força da lei para que ela fosse habitada, preferencialmente por não-judeus. Somente no século 3 a cidade foi declarada “pura” pelos fariseus e tornou-se sob Jehuda Há-Nasi sede do patriarcado judaico.
A menção dessa cidade recém-levantada nos dias de Jesus, no presente contexto, permite nos entender que Jesus havia-se retirado para um lugar seguro, perto de sua terra natal, a Galiléia. Os discursos no capítulo anterior dão margem à idéia do perigo que Jesus corria em Jerusalém, principalmente por causa de suas declarações que acabamos de estudar nas lições anteriores. Devemos ter bem claro que, havia vários momentos em que Jesus, literalmente, teve que fugir. Os Evangelhos não usam esse termo (confira em Mateus 15,21; Marcos 3,7; Lucas 4,29.30; 5,16 e 9,10 e João 6,15). Eles, respeitosamente, dizem “retirou-se”. Na referência de Lucas 4.29,30 tratou-se claramente de uma fuga. Jesus escapou aos que lhe foram no encalço.
(2) Seguia-o numerosa multidão, porque tinham visto os sinais que ele fazia na cura dos enfermos. Não nos é dito por qual caminho Jesus havia chegado à margem oriental do Mar da Galiléia. A numerosa multidão que O seguia (“porque tinham visto os sinais que ele fazia”) constituiu-se provavelmente dos mesmos peregrinos festivos que já O acompanhavam com suas famílias, quando Ele subiu para a festa (cap. 5.1). João menciona “os sinais” que Jesus fazia “na cura dos enfermos”. Pelo seu Evangelho, no entanto, sabemos somente de dois (a cura do servo do oficial e a do paralítico em Jerusalém), mas podem ter sido muitos mais. O Evangelista não se interessava em enumerar curas. Ele citou alguns sinais dos quais teve informações concretas ou de que fora testemunha ocular e usou-os para levar o leitor à conclusão que tinha em mente ao escrever seu Evangelho: Abrir os olhos deles para a “Glória de Deus” na pessoa de Jesus de Nazaré.O termo grego que o Evangelista usou para qualificar os numerosos “seguidores” mencionados, é um termo quase técnico, mais precisamente ele significa: “seguidores”. Com este termo ele os qualificou, desde já, como pessoas que O seguiam enquanto viam nisso alguma utilidade, mas logo depois O abandonaram, considerando Suas palavras “duras demais” (6.60s). (3) Então, subiu Jesus ao monte e assentou-se ali com os seus discípulos. (4) Ora, a Páscoa, festa dos judeus, estava próxima. Jesus chegou a subir a uma colina (monte) com seus discípulos, provavelmente procurando descanso. É neste momento em que o Evangelista observa a proximidade da festa da páscoa.
Todo o Evangelho de João deve ser lido na perspectiva da páscoa. Desde o começo, o autor mostra Jesus como Aquele que cumpre a missão que o Pai lhe outorgou. A páscoa, por assim dizer, já estava acontecendo espiritualmente quando o Batista anunciou: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (1.29) e ela se consumiu quando Jesus, por amor aos Seus, morreu na cruz, exatamente na hora da matança dos cordeiros pascais no Templo. Ainda mais: como ordena a “Halacha da Páscoa” (ordem cultual judaica), não lhe fora quebrada nenhuma perna (19.31s).
A denominação “Páscoa, a festa dos judeus” corresponde ao uso comum e não indica que João quer se distanciar “dos judeus”. Além de ser usada várias vezes (2.13; similarmente em 7.2), o historiador judaico Josefo também a usou na sua descrição da Festa dos pães asmos, quando disse que esta era chamada “páscoa pelos judeus”. Essa páscoa é o grande tema do Evangelista: a hora em que o Pai mesmo faria expiação pelo seu povo e pelo mundo. Confira neste contexto Hebr. 9,11-22, antes de continuar o estudo. Você entenderá melhor o significado dessa páscoa do Senhor para o judeu cristão.
Levantando os olhos, Jesus vê uma multidão se aproximando. De longe O haviam seguido e nem o cansaço os havia levado a desistir de ir atrás desse “Jesus de Nazaré”.
Antes de olhar a própria descrição do “sinal dos pães” (na próxima lição) convém pensar a respeito de dúvidas sempre levantadas e dificilmente respondidas num sermão dominical. Comparando os quatro Evangelhos, encontramos várias aparentes contradições. O sinal em si não é contestado: aconteceu, mas não foi compreendido logo, nem pelos discípulos, nem pelo povo saciado.
O que chama a nossa atenção é que Marcos relata duas alimentações, enquanto João só conhece uma. Além do mais, nos detalhes há diferenças. No relato de João é Jesus aquele que age, ordena, observa, enquanto em Marcos a iniciativa parcialmente parte dos discípulos.
O sinal em si é o único milagre que todos os quatro Evangelhos contam. Ele está fora de dúvida; aconteceu e foi compreendido somente muito mais tarde. A tradição reconheceu neste sinal o clímax do ministério de Jesus, o que, de fato, é o caso. Assim, cada Evangelista procurou descrever da melhor maneira e servindo ao propósito de seu Evangelho o que, de fato, aconteceu naquele dia. Todos os Evangelistas sabem que, após a refeição, Jesus ordenara que os restos fossem recolhidos. Só que em Marcos, no relato mais remoto, foram 12 cestos na primeira e sete na segunda alimentação enquanto João somente conhece doze cestos. Não há dúvida de que os Evangelistas querem transmitir uma mensagem através do número de cestos cheios, recolhidos de sobras.
Não somente isso: Marcos sabe de 5 pães e dois peixes na primeira e de 7 pães e “alguns peixinhos” na segunda alimentação, enquanto João lembra de 5 pães e dois peixinhos disponíveis inicialmente para a alimentação da multidão. O que significam esses números contraditórios?
Como pertencemos a uma geração estranha ao simbolismo judaico, geração “racional”, que desaprendeu de entender símbolos e está presa a números exatos, encontramos dificuldades no texto. Não as resolvemos apenas mandando “crer” que sete é igual a doze. Dependemos, de um lado, do conhecimento das Escrituras da Antiga Aliança e, de outro, de humildade perante o mistério.
Como já mencionamos, podemos ter como provavelmente certo que João conheceu o Evangelho de Marcos e o usou como fonte de informação. Observamos que o nosso Evangelista nada repete do que Marcos já disse. Uma possível explicação das diferenças encontradas é a seguinte, apresentada por H.Thyen no seu “Comentário do Evangelho de João (2005):
Parece que João reuniu os dois relatos de Marcos (6,35s e 8,1-9) num só. Marcos, por sua vez, parece ter usado o caminho contrário: da tradição e do conhecimento mais remoto, ele por razões que ora não podem ser definidas, criou dois acontecimentos. Chamam atenção os números diferentes de cestos nos dois acontecimentos relatados por Marcos. A alimentação dos cinco mil com 12 cestos cheios parece apontar para a esperada reunião dos doze tribos (ainda espalhados) de Israel, enquanto os sete cestos na alimentação dos 4 mil representam a totalidade dos povos, vindo dos quatro cantos do mundo. Marcos compreendeu, ao escrever seu Evangelho, que a páscoa apontava para a consumação do tempo. João, por sua vez, meio século mais tarde, entendeu que a reunião e consumação só seria possível pelo Senhor ressurreto e Seu Espírito, concedido a Seu povo. Portanto reuniu as duas narrações de Marcos numa só.
Salientamos que as considerações acima devem ser vistas, no máximo como um hipótese provável, não como instrução bíblica.
João, Evangelista, conheceu com certeza as Escrituras e, ao relatar a alimentação, lembrou-se do mesmo sinal (milagre do pão) do profeta Eliseu (2.Rei 4,42-44) quando menciona os “pães de cevada” do menino (6.9).
O autor do livro de 2 Reis 4.42 conta que “Veio um homem de Baal-Salisa e trouxe ao homem de Deus pães das primícias, vinte pães de cevada, e espigas verdes no seu alforje. Disse Eliseu:’Dá ao povo para que coma’. (43) Porém, seu servo lhe disse: ‘Como hei de por isto diante de cem homens?’ Ele (Eliseu) tornou a dizer: ‘Dá-o ao povo, para que coma; porque assim diz o Senhor: Comerão, e sobejará. (44) Então, lhes pôs diante; comeram, e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor”.
No capítulo anterior ouvimos como Jesus apontou “as Escrituras” como testemunha fiel a seu favor. Sendo assim, a semelhança do acontecimento acima não pode ser desprezada.
Mais ainda: Pão de cevada era comida típica de gente pobre (Comida de disciplina para soldados maus, alimento para escravos e gente insignificante) Fonte: Bauer, Com.92.
Sendo assim, entendemos melhor que Deus do “nada” faz alguma coisa para sua Glória. Ele não precisa do pão de ricos; Ele usa você e eu e nos transforma de acordo com Sua soberana vontade.
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