23 de set. de 2007

O EVANGELHO DE JOÃO (AR) Cap. 6.16-29




(16) Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar. (17) E, tomando um barco, passaram para o outro lado, rumo à Cafarnaum. Já se fazia escuro, e Jesus ainda não viera ter com eles. (18) E o mar começava a empolar-se, agitado por vento rijo que soprava. (19) Tendo navegado uns vinte e cinco a trinta estádios, eis que viram Jesus andando por sobre o mar, aproximando-se do barco; e ficaram possuídos de temor. (20) Mas Jesus lhes disse: “Sou eu. Não temais!”. (21) Então, eles, de bom grado O receberam, e logo o barco chegou ao seu destino.
(22) No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do mar, notou que ali não havia senão um pequeno barco e que Jesus não embarcara nele com seus discípulos, tendo estes partindo sós. (23) Entretanto, outros barquinhos chegaram de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, tendo o Senhor dado graças. (24) Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua procura. (25) E, tendo o encontrado no outro lado do mar, lhe perguntaram: “Mestre, quando chegaste aqui?” (26) Respondeu-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” . (27) Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. (28) Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: “Que faremos para realizar as obras de Deus?” (29) Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é esta: “que creiais naquele que por Ele foi enviado.”

(16) Ao descambar o dia, os seus discípulos desceram para o mar. Ao cair da noite, tendo perdido Jesus de vista e, sem Ele, os discípulos desceram para onde haviam deixado o barco ancorado.

(17) E, tomando um barco, passaram para o outro lado, rumo à Cafarnaum. A forma gramatical do original diz que “pretendiam passar” para o outro lado. É possível que a travessura foi iniciada às pressas, no intuito de encontrar Jesus talvez em Cafarnaum, de onde saíram.

Já se fazia escuro, e Jesus ainda não viera ter com eles. (18) E o mar começava a empolar-se, agitado por vento rijo que soprava. O esforço físico em lutar contra o vento deixava os discípulos apreensivos.

(19) Tendo navegado uns vinte e cinco a trinta estádios... Um “estádio” corresponde exatamente ao cumprimento do famoso estadio olímpico em Atenas, isto é, entre 185 e 192 metros. Quando já tinham vencido mais da metade do caminho, mais ou menos cinco quilômetros, repentinamente viram algo muito estranho: ... eis que viram Jesus andando por sobre o mar, aproximando-se do barco; e ficaram possuídos de temor.
Era noite. Marcos, no seu relato que corresponde ao que Pedro lhe passou, diz que os homens temiam que se tratasse de um fantasma, e gritaram de medo. Para poder enxergar alguém, à noite, no meio de uma tempestade e com a água das ondas salpicando em seus rostos, esse alguém deveria ter irradiado alguma luz.
O Evangelista João é menos detalhista que Marcos e Mateus. Ele não viu necessidade de detalhar novamente o que os sinópticos já tinham feito. Pelo relato de Marcos temos a impressão que as palavras desse “fantasma” ainda aumentaram o horror dos homens, pois ele anotou que eles ficaram “atônitos”. Enquanto Marcos e, com ele Mateus, além do “sou eu” nos transmitiram outras sentenças, João se limita às poucas palavras que importavam e que, na ocasião, os discípulos angustiados não conseguiam compreender “porque seus corações estavam endurecidos”, como disse Marcos (8,52).

(20) Mas Jesus lhes disse: “Sou eu. Não temais!” Ao contrário de Marcos, em cujo relato ainda havia alusão à possibilidade de um “fantasma”, para João não restava dúvida. Tanto nós quanto os leitores que, na época de João liam seu Evangelho, ao terminar a leitura da obra não terão mais dúvidas: aquilo que os discípulos angustiados ouviram era nada mais nada menos do que a identificação do “Sou eu”; era a mesma identificação que Moisés ouviu da sarça ardente (Ex3,14). Era o mesmo “Eu sou” dos capítulos João 8,24.28.58; 13,19 e 18,5.7.8 (confira!). Lembre-se das palavras iniciais, cada vez que Deus falava com alguém. Somente alguns exemplos no NT: Lc.1,30/Luc 2,10/Atos 18,9. O Evangelista viu, claramente, o que chamamos de uma “teofania” (quando Deus, sob alguma forma, se torna “presente”).

Anos mais tarde, quando João compôs seu Evangelho, ficou evidente para ele a ligação do “sinal do pão” com esse encontro. No corre-corre daquele momento não havia como entender a presença do Deus Vivo, mas para João, refletindo, tudo ganhou sentido: era outro sinal de Deus, confirmando seu Filho.

As descrições do que aconteceu após o aparecimento de Jesus, são contraditórias. Parece que não havia lembrança exata do que e como aconteceu. João percebeu outra circunstância misteriosa: Então, eles, de bom grado O receberam, e logo o barco chegou ao seu destino. A nossa tradução não é exata. O texto diz que, no mesmo instante em que receberam Jesus, já haviam chegado ao seu destino. Onde ficaram os mais ou menos quatro quilômetros a serem remados? Há algo como que um véu sobre o acontecimento. O sinal do pão e o da teofania no lago estão intimamente ligados. João, ao contrário dos sinópticos, não enriqueceu com detalhes seu relato do encontro no meio da tempestade. A visão do “Filho glorificado” era suficiente e era o que lhe importava salientar.

No decorrer do tempo surgiram as mais tolas teorias como, por exemplo, de uma “camada de gelo, sobre a qual Jesus andava” e outras (p. ex. nos assim chamados “Seminários de Jesus”); ou considerações de que tudo não passava de uma fantasia, ilusão ou simplesmente de um mito.

Para quem, como João Evangelista, reconhece na aparição de Jesus “como andando sobre as águas” uma manifestação da pessoa de Deus (teofania), não é necessário mais especular sobre “como” e “o quê”, como fazem alguns comentaristas, que não aceitam Jesus como o “Logos de Deus”. Uma solene segurança inunde o coração daqueles que, como João, têm seus olhos abertos.

(22) No dia seguinte, a multidão que ficara do outro lado do mar, notou que ali não havia senão um pequeno barco e que Jesus não embarcara nele com seus discípulos, tendo estes partindo sós.
Este verso, desde cedo, tem dado razão para muita confusão e tentativas de interpretação. De que lado do mar João estava falando? A versão mais plausível é a seguinte: No lugar onde o povo fora alimentado na tarde anterior havia um só barco, e as pessoas lembravam que os discípulos, sim, mas não Jesus havia nele embarcado. O certo seria: “...no dia anterior haviam notado que ali (no lugar da alimentação) não havia senão um pequeno barco.

O Evangelista muda seu foco e continua a contar o que aconteceu com as pessoas que presenciaram a distribuição do pão. Muitas delas, a esta altura, já devem ter voltado para o lugar de sua origem. Os que pernoitaram no lugar, notaram a ausência tanto de Jesus quanto de seus seguidores mais íntimos.

(23) Entretanto, outros barquinhos chegaram de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, tendo o Senhor dado graças. (24) Quando, pois, viu a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, tomaram os barcos e partiram para Cafarnaum à sua procura.
Não havia ocupação tão urgente que impedisse um número não definido de pessoas resolverem ir atrás “do profeta”. A alimentação no campo tinha sido uma experiência tão maravilhosa; quem sabe, outras manifestações estariam à vista.

(25) E, tendo o encontrado no outro lado do mar, lhe perguntaram: “Mestre, quando chegaste aqui?”
Pela resposta de Jesus concluímos que a pergunta, aparentemente motivada pela curiosidade e querendo descobrir o como e quando “o profeta” tinha chegado, era puro disfarce. O que os interessava eram mais maravilhas.

O Evangelista deixou para seus leitores bem claro aquilo que lhe havia causado a mais profunda impressão: a revelação do “Logos”. Essa revelação seria verbalizada pouco depois por Pedro (verso 6.69).

A multidão, ao contrário, não havia visto nenhum sinal apontando para a pessoa de Jesus; o que a interessava, era a satisfação física: o alimento, raro e valioso.

(26) Respondeu-lhes Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes” .
O duplo “amém, amém” de Jesus na sua resposta não admitiu contestação. Jesus não censurou o povo pelo fato de ter sido saciado e, portanto, satisfeito. Ele lhes apontou sua incapacidade de pensar além do pão e não ter reconhecido o doador, o Pai, nem ter-lhe dado graças.

(27) Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo. Parafraseando: Não gastem suas forças e seu tempo na procura do pão que rapidamente perece. Vão atrás daquele alimento que lhes dá vida eterna (=comunhão no Reino de Deus)!
Eles não haviam notado o sinal através do qual o Pai acabara de confirmar diante da multidão Aquele que lhes daria esse outro “pão”!

Certamente alguns dos presentes lembravam do maná que Moisés “do céu” no deserto havia dado aos israelitas. Ali Deus já os avisou:

“Ele (Deus) te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conhecias, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do SENHOR, viverá o homem” (Deut.8,3). A lição do maná aparentemente ainda não havia transformado a mente das pessoas em redor de Jesus.

(28) Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: “Que faremos para realizar as obras de Deus?”
Na medida em que os presentes perceberam que Jesus estava referindo-se a “outra comida”, a “algo da religião”, eles imediatamente concluíram que essa referência, espiritual, deveria estar relacionada com algum esforço, cumprimento de voto, promessa, sacrifício. Jesus corrigiu essa interpretação tipicamente judaica (e, infelizmente, presente em “cristãos”).

(29) Respondeu-lhes Jesus: “A obra de Deus é esta: “que creiais naquele que por Ele foi enviado.” Deus não exige e nem espera uma determinada quantia de obras – (pois essa era a tônica da religião mosaica); Ele unicamente espera e exige que creiamos na “obra dEle” , isto é, na pessoa do Seu amado Filho, através do qual ELE se revelou e continua se revelando.

• Quais as suas obras para “merecer” o céu? Será que elas são suficientes, mesmo?
ou:
• você está disposto a colocar toda sua confiança unicamente no Filho amado, no qual Deus também se revela a você? O próximo estudo lhe dirá por que você estará seguro, confiando naquilo que Deus fez por você.

• Pense!

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